A Camisa do Homem Feliz

a camisa do homem feliz

Vocês acreditam que meus avós atravessaram o oceano na mesma época e vieram se conhecer aqui em São Paulo, numa lavoura de café quando ainda eram adolescentes? Eles se conheceram, se apaixonaram, se casaram e tiveram cinco filhos, quatro meninas e um menino. Dos filhos vieram quatro netos, que presentearam meu avô com cinco bisnetos. Foi do resgate dessas memórias que encontrei um conto para narrar em um treinamento.

Recebi o convite para contar uma história na abertura de um ciclo de workshops para profissionais da saúde com a seguinte demanda: o conto precisa mostrar que cada um é único. Confesso que não tenho um arquivo de contos que servem para essa ou aquela ocasião. Quem é que tem? As histórias são mais que isso, tem um potencial muito maior em contextos que a gente sequer imagina. Tenho ainda muito a aprender sobre isso.

Então pedi sugestões a contadores de história queridos, vasculhei meus livros e nada me parecia adequado (se é que quando se trata de contos se pode pensar isso). Até que despretensiosamente abri um livro que já me salvou em horas de aperto, sempre há algo naquelas páginas que me dizem muito mais do que eu espero. É o Fábulas Italianas, do Ítalo Calvino. No conto há um rapaz que imediatamente me remeteu à imagem do meu avô ainda mocinho, que me fez lembrar da história dele com a minha avó e então tudo me pareceu adequado e propus esse conto, junto a outros três para que as organizadoras do workshop pudessem escolher. Foi um tiro certeiro! Os outros contos eram também muito interessantes, mas este já vibrava em mim, embora nunca o tivesse contado antes.

Usei tudo que aprendi para preparar o conto e fui. Encontrei caras carrancudas, olhares apáticos, sorrisos curiosos… ao longo do conto parecia que as coisas iam se encaixando, se conectando, se acalmando. Algumas caras carrancudas permaneceram, outras se converteram em sorriso de criança. Tive a oportunidade de narrar dez vezes o conto para grupos de pessoas diferentes em dias e horários diversos. A cada experiência era uma nova sensação e muito, mas muito, aprendizado.

Quando a Regina Machado diz que contar histórias é uma situação de encontro eu pude entender. Foram  dez encontros, que duravam menos de quinze minutos, durante meu trabalho como jornalista dentro de um hospital, com pessoas que sairiam daquela sala para seu plantão. Nesse curto espaço de tempo havia o conto, o narrador e a audiência. Vi muito sentido nisso tudo.

Depois descobri outras versões desse conto, mas esta ainda é a mais especial para mim.

 

 A Camisa do Homem Feliz

Um rei tinha um filho único e gostava dele como da luz dos próprios olhos. Mas o príncipe estava sempre descontente. Passava dias inteiros debruçado na sacada a olhar para longe.

– Mas o que lhe falta? – perguntava-lhe o rei.  O que é que você tem? -Está apaixonado? Se quer uma moça qualquer, diga-me e será sua esposa, seja ela a filha do rei mais poderoso da terra ou a mais pobre camponesa.

– Não, papai, não estou apaixonado.

E o rei tentava distraí-lo de todas as formas! Teatros, bailes, música, cantos; mas nada adiantava, e a cada dia desapareciam do rosto do príncipe as nuances do vermelho.

O rei publicou um edital, e de todas as partes do mundo vieram pessoas mais instruídas: filósofos, doutores e professores. Mostrou-lhes o príncipe e pediu conselhos. Eles se retiraram para pensar e voltaram  à presença do rei.

– Majestade, pensamos, lemos as estrelas; eis o que deve fazer. Procure um homem que seja feliz, mas feliz em tudo, e troque a camisa de seu filho com a dele.

Naquele mesmo dia, o rei mandou os embaixadores mundo afora a fim de procurar o homem mais feliz.

Levaram-lhe um padre.

– O senhor é feliz? perguntou o rei.

-Sim, majestade!

-Muito bem. Ficaria contente em se tornar o meu bispo?

– Quem me dera, Majestade!

– Rua! Fora daqui! Procuro um homem feliz e contente com a sua condição; e não um que deseja estar melhor do que está.

E o rei ficou esperando outro. Havia um rei vizinho, disseram-lhe, que era feliz e contente de fato: tinha esposa bonita, um monte de filhos, vencera todos os inimigos na guerra e seu país estava em paz. Imediatamente, cheio de esperança, o rei mandou que os embaixadores fossem lhe pedir a camisa.

O rei vizinho recebeu os embaixadores e:

– Sim, sim, não me falta nada, porém é pena que quando a gente tem tantas coisas, tenha que morrer e deixar tudo! Com tal pensamento, sofro tanto que não durmo à noite!

E os embaixadores acharam melhor ir embora.

Para desafogar seu desespero,o rei foi caçar. Atirou em uma lebre e pensava havê-la atingido, mas a lebre, mancando, fugiu. O rei a perseguiu e afastou-se do séquito. No meio dos campos, ouviu um homem cantando uma cançoneta. O rei parou: “Quem canta assim, só pode ser feliz!”, e seguindo o canto entrou numa vinha,vendo entre as fileiras, um jovem que cantava, podando as videiras.

– Bom dia, Majestade – cumprimentou o jovem. Tão cedo e já pelos campos?

– Bendito seja você! Quer que o leve comigo para a capital? será meu amigo.

– Ai, ai, ai, majestade,não, não mesmo, obrigado. Não trocaria de lugar nem com o papa.

– Mas por que você, um rapaz tão forte…

– Eu lhe digo que não. Estou contente assim e basta.

“Finalmente um homem feliz!” pensou o rei.

– Escute, jovem, deve me fazer um favor.

– Se puder, de todo o coração, Majestade.

– Espere um momento. e o rei, que não cabia mais em si de alegria, correu em busca de seu séquito: – Venham! Venham! Meu filho está salvo. E os conduz até o jovem. – Bendito jovem, diz,dar-lhe-ei tudo o que quiser! mas me dê, me dê…

– O que, Majestade?

– Meu filho está à beira da morte! Só você poderá salvá-lo. Venha aqui, espere!

E o segura, começa a desabotoar-lhe o casaco. De repente, estaca. Tombam-lhe os braços.

O homem feliz não tinha camisa.

 

—–

Compartilho com vocês uma citação do Ítalo Calvino sobre este livro: “Agora que o livro terminou, posso dizer que não foi uma alucinação, uma espécie de doença profissional. Tratou-se de uma confirmação de algo que já sabia desde o início, aquela coisa indefinida à qual me referia antes, aquela única convicção que me arrastava para a viagem entre as fábulas. E penso que seja isto: as fábulas são verdadeiras”.

Encontrei uma versão em pdf do livro. Se quiser conhecer mais fábulas, é só baixar aqui.

4 pensamentos sobre “A Camisa do Homem Feliz

    • Ah Sandra! Fico feliz com seu comentário.
      Eu tinha esse post pronto há um tempo já, mas não estava com coragem de publicar. Achei que não seria interessante para os leitores!
      Experiência é assim, a gente vai construindo tijolo a tijolo.

      Muito obrigada por compartilhar sua opinião.

      Beijo grande
      Renata

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