O homem cujo tempo estava alterado (assim como o meu)

Todos no mundo têm um dia com a mesma quantidade de horas: exatas 24. Essa constatação não passa de óbvia, eu sei, mas o meu dia – há algum tempo – parece ter menos. (Outra constatação óbvia em tempos de ansiedade de informação). Tenho tentado entender o porquê… Talvez excesso de atividades, muitas horas de trabalho, horas e mais horas desperdiçadas no trânsito. É tudo isso, sim. Mas tem mais. Era esse “mais” que eu não encontrava. Daí abri um livro, que estava há um tempão na fila “dos que serão lidos”, e recebi um tapa na cara na forma de conto. Eu me vi tanto nessas palavras que achei que seria importante compartilhá-lo aqui, uma vez que as minhas 24 horas alteradas não estão sendo suficientes para preparar o conteúdo do Quantos Contos e isso me deixa triste.

Agora eu sei que não é falta de tempo, querido leitor.
Prometo que o tempo entrará nos eixos e voltaremos com muita coisa bacana. 😉

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“Naquele momento, o seu tempo estava alterado.
Foi necessário esperar que ele se harmonizasse novamente.”

O HOMEM CUJO TEMPO ESTAVA ALTERADO

Havia, certa vez um rico negociante que vivia em  Bagdá. Tinha uma casa excelente, pequenas e grandes propriedades e embarcações que navegavam para as Índias com mercadorias valiosas.

           Tudo isso ele obtivera por dois meios: uma herança que recebeu e os conselhos e orientações do Rei do Ocidente, como era chamado o sultão de Córdoba. Com essas duas coisas, ele trabalhou muito e, com os empreendimentos certos, no lugar certo e na hora certa sempre dão certo, ele enriqueceu rapidamente.

           Foi então que algo não correu bem. Um governante estúpido e opressor subiu ao trono e aumentou tanto os impostos, que o rico negociante de Bagdá acabou vendo suas terras e casas confiscadas. Seus navios, a caminho das Índias, foram surpreendidos por terrível furacão e naufragaram. A série de desgraças acabou afetando sua família e seus negócios. Até os verdadeiros amigos já não conseguiam estar em harmonia com ele.

           Então, o negociante resolveu viajar até a Espanha, para encontrar o Rei do Ocidente, aquele que lhe dera conselhos tão valiosos e se mostrara seu amigo.

           Mas, durante o trajeto, uma série de novas desgraças aconteceu. Seu cavalo morreu e ele foi capturado por mercadores de escravos e vendido numa praça de mercado. Com grande dificuldade, conseguiu escapar. O sol do deserto castigava-lhe a pele, aldeões rudes expulsaram-no de suas portas. Aqui e ali, ele conseguia água e um pouco de comida com um dervixe. Suas roupas já eram molambos esfarrapados quando, finalmente, depois de três anos, chegou ao palácio do Rei do Ocidente.

           No entanto, seu estado era tão deplorável, que nem os guardas o deixaram entrar. Então, ele pediu um emprego humilde no palácio, assim poderia conseguir algum dinheiro e comprar roupas distintas para apresentar-se diante do rei.

           O sofrimento tinha feito dele um homem tão embrutecido, que teve também de tomar aulas com o chefe de cerimônias, antes de se apresentar.

           Mas, durante todo esse tempo, não se esquecia de que estava próximo do rei, de sua bondade.

           Quando finalmente foi levado à presença do rei, o monarca o reconheceu de imediato, perguntou-lhe como estava e deu-lhe um lugar de honra a seu lado.

           – Majestade – disse o mercador -, tenho sofrido imensamente nestes últimos anos.

           O rei quis saber toda a história, e ele a contou. Quando terminou, disse:

           – Estou aqui para me colocar nas mãos de sua misericórdia.

           O rei chamou um assistente e disse-lhe:

           – Dê a este homem cem ovelhas e faça dele um pastor real.

           Desalentado, pois a generosidade do rei parecera-lhe muito aquém do esperado, o mercador afastou-se, com as saudações de praxe. Foi conduzido às montanhas com as cem ovelhas, recebeu uma pequena casinha como morada e instruções de como cuidar das ovelhas. Ele nunca havia pastoreado ovelhas. Na verdade, aquilo nada tinha a ver com ele.

           Mal havia se instalado, suas ovelhas foram acometidas por uma doença e morreram todas. Ele voltou ao palácio.

           – Como estão suas ovelhas? – perguntou o rei.

           – Majestade, elas morreram assim que as levei para as montanhas.

           O rei chamou seu assistente.

           – Dê a este homem cinqüenta ovelhas e deixe que cuide delas.

           Sentindo-se envergonhado e confuso, o pastor levou suas cinqüenta ovelhas para a montanha. Elas começaram a pastar normalmente, mas de súbito apareceram os lobos, e as que não foram devoradas caíram no abismo quando tentavam escapar.

           Muito aflito, o mercador voltou à presença do rei e contou-lhe o que ocorrera.

           – Está bem. Agora, leve vinte e cinco ovelhas e continue como antes.

           Aturdido, desesperançado, envergonhado e sentindo-se incapaz, o mercador partiu com suas vinte e cinco ovelhas.

           Mas, tão logo chegaram à montanha, elas começaram a parir gêmeos e quase duplicaram o rebanho. As ovelhinhas eram gordas, lanosas, e o mercador observou que, vendendo algumas, poderia adquirir muitas outras, fracas de início, que se recuperariam e logo pareceriam uma nova raça. Assim, ao final de mais três anos, regressou à Corte, muito bem vestido e levando um relatório sobre a melhoria do rebanho durante sua administração.

           O rei admitiu-o logo à sua presença.

           – Então agora você é um próspero pastor?

           – Sim, é verdade, Majestade. De uma forma que me parece incompreensível, minha sorte mudou e tudo dá certo, embora eu continue não gostando de criar ovelhas.

           O rei deu uma boa gargalhada e disse:

           – Muito bem. Mais além, fica o reino de Sevilha, cujo trono me é adjudicado. Vá para lá e que todos saibam que eu o faço rei de Sevilha.

           E, assim dizendo, tocou-lhe no ombro com o bastão real.

           Sem poder se conter, o mercador exclamou:

           – Mas, por que então, Majestade, não me fez rei de Sevilha da primeira vez que me apresentei aqui? Estava testando minha paciência, já tão exigida? Ou queria ensinar-me algo?

           O rei sorriu e disse:

           – Meu amigo, se você tivesse assumido o governo de Sevilha no dia em que levou as cem ovelhas, hoje não haveria pedra sobre pedra. Naquele momento, o seu tempo estava alterado. Foi necessário esperar que ele se harmonizasse novamente.

Tuscany Landscape

Conto da tradição Sufi, recontado por Idries Shah e compilado em O Ofício do Contador de Histórias, Gislayne Avelar Matos e Inno Sorsy, Ed. Martins Fontes

4 pensamentos sobre “O homem cujo tempo estava alterado (assim como o meu)

  1. Lindo conto, Re! Acho que estou ainda na fase de perder as ovelhas para os lobos…O fase difcil. cara…Parece que nunca vai passar…Fico alegre quando penso nas torres de Sevilha…Bjs.Re

  2. Que presente, hein, Rê! Nossa, já estava sentindo sua falta; sempre acompanho e faz um tempinho que vc sumiu…
    Mas, força vamos rumo as torres de Sevilha. bj Mo

    • Pois é Mônica! Um baita presente desses tem de ser aproveitado, né? Rumo às torres de Sevilha!!!!
      Aguarde as novidades. O relojinho interno está sendo reconfigurado e logo mais estará tudo no lugar 😉

      Obrigada pelas palavras de carinho!
      Beijo grande

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