O Cavaleiro e a Serpente

Inclinando-se no seu banco, Omar bin Mohammed fitou o foco de luz junto à porta e começou:

“Era uma vez, há muito tempo e a muitos dias de viagem de onde estamos, um reino chamado Terra dos Potes e Panelas. Todos os seus habitantes eram feliz e prósperos, devido ao negócio de vender potes e panelas para os outros reinos das redondezas. Na Terra dos Potes e Panelas havia todo tipo de animal. Havia leões, tigres, crocodilos e até mesmo cangurus. Todos os animais imagináveis, exceto cobras. Ninguém jamais vira uma serpente nem podia imaginar tal criatura.

Certo dia, um lenhador estava dormindo na floresta quando uma longa serpente verde deslizou até ele e entrou pela sua boca aberta até a garganta. O lenhador acordou, sufocado pela serpente. Em pânico conseguiu levantar-se e balançar os braços, gemendo o mais alto que podia. Quis a sorte que um cavaleiro cavalgasse por ali naquele exato momento. Ele viu o lenhador acenando desesperadamente. Como vinha de um reino vizinho onde as cobras eram comuns, percebeu imediatamente o que acontecera. Brandindo seu chicote, saltou do cavalo e começou a chibatar o estômago do pobre lenhador com toda a força.
O lenhador tentou protestar, mas semissufocado pela serpente e ferido pelo ataque aparentemente sem razão do cavaleiro nada pode fazer, exceto cair de joelhos. Incomodada com o desconforto do seu esconderijo, a cobra saiu pela garganta do lenhador e tratou de fugir.

Quando viu que o lenhador estava fora de perigo, o cavaleiro saltou de novo na sua montaria e partiu sem dizer uma palavra. Vindo de uma terra onde tais ataques eram frequentes, não pensara duas vezes no assunto.

Enquanto recuperava o fôlego, o lenhador começou a compreender o que havia acontecido. E que o cavaleiro o atacara em silêncio porque o tempo era valioso: tinha que agir antes que o réptil injetasse veneno na sua corrente sanguínea.”

Omar bin Mohammed levantou o baú berbere envolto em jornal e sorriu.

“Não se esqueça da história”, recomendou. “Vai apreciá-la ainda mais porque pagou para ouvi-la. Permita que ela passeie por sua cabeça. Quanto mais ela o fizer, mais seu verdadeiro valor se revelará para você.

Do livro Nas Noites Árabes, capítulo 6, pág. 83

Desde de que li o conto, ele tem passeado pela minha cabeça. Os contos da tradição sufi tem esse poder de permear a vida de quem os ouve ou os lê. Valeu Tahir Shah ter pago 60 dólares para ouvir a história e compartilhá-la no livro. Ela está se espalhando por aí. 😉

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