Uma loja onde tudo é de graça

Imagine entrar numa loja e poder levar o que você quiser sem pagar nada.
— Oi?
— Sim, foi isso mesmo que você leu: sem pagar nada.
— Ah vá! Só pode ser piada…

Essa foi minha sensação ao ler um trecho do delicioso Nas Noites Árabes, de Tahir Shah. Já havia falado desse livro aqui. Foi uma super dica de leitura da contadora de estórias Fabiana Rubira. Agora ele é meu livro de cabeceira. Em poucas palavras saio do trânsito da Marginal e vou parar nas vielas do Marrocos, na Casa do Califa e nas incríveis histórias recontadas.

Essa história de levar um item de uma loja sem pagar nada me chamou tanta atenção pela sacada do mercador que me lembrei do storytelling na publicidade. Os mercadores orientais certamente têm muito a ensinar aos publicitários e aos comunicadores…

Salim_o_magico_1

[…]

O proprietário era um homem de ar satisfeito com olhos cor de tabaco e uma mancha seca de café na camisa. Disse que se chamava Omar bin Mohammed. Estava sentado num banco atrás de um feixe de luz junto à porta. Não o vi de início, foi preciso acostumar os olhos à escuridão.

Omar parecia ansioso para fazer negócios. Mas, como logo descobri, havia algo que ele apreciava muito mais do que encher os turistas de bugigangas.

Ele adorava contar histórias.

A primeira coisa que Omar explicou quando entrei foi que nada, absolutamente nada, estava à venda. Por mais que eu quisesse um dos antigos baús berberes, ou os rudes escudos do Saara, ou os colares de âmbar, estava sem sorte, afirmou.

[…]

“Então na minha loja nada está à venda.”

“Ah.”

Omar fez uma pausa, flexionou o pescoço e sorriu. “Nada está à venda…”, repetiu. “É tudo de graça, absolutamente de graça!”

Olhei para as prateleiras. Um dos antigos baús berberes chamara minha atenção. O pensamento de leva-lo sem pagar nada subitamente me pareceu agradável.

“Então posso ficar com aquilo?”

“É claro que sim”, respondeu Omar.

“Sem pagar? Posso simplesmente leva-lo?”

“Já falei, eu dou os objetos.”

“Estou muito feliz de ter entrado aqui.”

“Também estou feliz por isso”, disse o lojista.

Levantei-me e fui até o baú berbere. Omar me encorajou a abrir a tampa, revelando um interior forrado com feltro desbotado.

“Ah, tem uma coisa que preciso lhe contar”, disse ele suavemente.

“O quê?”

“É que cada item desta loja tem algo associado a ele.”

Novamente não entendi direito. “E o que é?”

“Uma história.”

Olhei para o lojista e estreitei os olhos.

“Hã?”

“Se quiser levar um item”, explicou, “então precisa comprar a história associada a ele.”

Omar piscou. Depois eu pisquei. Ele esfregou o rosto novamente enquanto eu pensava no esquema. Numa cidade onde a competição pelo dinheiro dos turistas é frenética, Omar bin Mohammed inventara um truque sem igual. Ele sorriu de orelha a orelha, depois se esforçou para manter uma aparência inocente.

“Qual é a história associada com aquele baú?”

O lojista pensou por um momento, beliscando o bigode. “Chama-se O Cavaleiro e a Serpente.”

“Quanto custa ouvi-la?”

“Seiscentos dirhams.”

“São sessenta dólares. O baú não vale tudo isso.”

“Eu lhe disse, os objetos que estou dando não são especiais. O baú tem boa aparência, mas não vale nada.”

“Então porque deveria pagar seiscentos dirhams por algo que não vale nada?”

Omar bin Mohammed entrelaçou os dedos e se curvou. “Pela história”, respondeu.

Tirei três notas da carteira. “Aqui está o dinheiro.”

Um momento depois as notas sumiram debaixo de camadas de pano e o baú berbere foi embrulhado com folhas de jornal amassadas.

“É uma boa escolha”, elogiou Omar.

“Mas pensei que tivesse dito que vendia lixo.”

“Aquele baú pode ser lixo, mas O Cavaleiro e a Serpente vale três vezes o valor que estou lhe cobrando. ”

[…]

Do livro Nas Noites Árabes, capítulo 6, pág. 80

A imagem é o livro Salim, o Mágico, de Malba Tahan

Um pensamento sobre “Uma loja onde tudo é de graça

  1. Pingback: O Cavaleiro e a Serpente | Quantos contos vale um conto

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